
Christopher Hitchens, 61
anos, colunista da Vanity Fair,
é um dos maiores polemistas do jornalismo contemporâneo. O título de um de seus
livros conta tudo: God is Not Great
(Deus Não é Grande). Hitchens nasceu na Inglaterra, estudou em Oxford, foi de
esquerda, mudou para os Estados Unidos e lá se tornou um dos semideuses do
mundo literário e cultural americano. [...] Um de seus alvos é a religião. Hitchens, ateu, acha que a religião faz mais mal que bem
para a humanidade. Uma frase clássica de um personagem Dostoievski – “se Deus
não existe, tudo é permitido” – é usada por ele em sua argumentação. A frase,
segundo Hitchens, é insultuosa para todos nós. Não
dependemos da existência de Deus para saber que não devemos matar, roubar,
estuprar [mas Hitchens e os darwinistas em geral não
explicam satisfatoriamente a emergência da moral e do altruísmo num mundo
formado por amontoados de moléculas e em que sobrevivem os mais aptos].
Hitchens, com sua pregação antideus,
atraiu o ódio de muitos religiosos. Mas agora há grupos organizados rezando por
ele. Não para que ele mude e acredite em Deus, mas para que sare. Há poucos
dias, num artigo na revista Vanity
Fair, ele anunciou que está com câncer na
garganta. Pouca gente com seu tipo de câncer sobrevive
para contar a história. Lembro de George Harrison: todo seu dinheiro não
comprou a saúde quando o cigarro lhe provocou um câncer na garganta. (Quando
penso em George, morto aos 58 anos, me ocorre Epicuro
com sua sabedoria irrefutável: nada é tão importante para a felicidade como a
boa saúde. O bilionário sem saúde é um miserável.)
Dramas como o de Hitchens sempre mostram a
fragilidade de tudo. Hitchens tinha acabado de
lançar, com uma repercussão extraordinária, um livro de memórias. Vivia dias de
glória. Estava dando entrevistas para todo mundo e recebendo informações de
vendas incríveis quando desabou sem conseguir respirar e mergulhou num pesadelo
que, provavelmente, só terminará com sua morte. Desfrutar a vida como se cada
dia fosse o último pode soar como clichê, mas é uma das melhores coisas que
alguém pode fazer, e é uma pena que a gente só pense nisso quando aparecem
casos como o de Hitchens.
Por que eu? Esta é uma pergunta clássica em situações extremas. Hitchens, com sua inteligência e agudeza, reformulou-a.
“Por que não eu?” Sêneca, o grande filósofo romano, escreveu que nada que
aconteça a alguém não pode acontecer a nós mesmos. Preparemo-nos, portanto, para
tudo. E no entanto ficamos perplexos quando alguma
coisa ruim irrompe em nossa vida.
Hitchens, numa entrevista à CNN em que sua viçosa
cabeleira sexagenária estava substituída por tufos trazidos pela quimioterapia,
não parecia desesperado, o que depõe em favor de seu caráter. Disse que abençoa
os que rezam por ele, mas sem acreditar em “encantamento”. Ele próprio,
coerentemente com suas convicções, não reza. [...]
Minha maior ambição, pós-vida, é virar pó, e nunca mais ter que enfrentar as
dores deste vale de lágrimas. Reencarnar em meio a outras pessoas que não as
que fazem parte de minha vida seria um pesadelo
inominável para mim. Não quero outro pai, não quero outra
mãe, não quero outros irmãos, não quero outros filhos, não quero outros
amigos. Não quero sequer outros inimigos.
Gosto da atitude de Hitchens. Ele fez a pergunta a exata para enfrentar, da melhor maneira
possível, os tempos difíceis que tem pela frente: Por que não eu?
(Paulo Nogueira, Diário do Centro do Mundo)
Nota: Cada vez
que um ateu enfrenta a morte sem Deus (não me entenda mal, amigo ateu), sinto
um aperto no coração. Sempre admirei muito o astrônomo Carl Sagan. Ateu convicto, ele morreu na esperança
de fazer contato com alguma raça extraterrestre. De Saramago, li muito pouco, mas também me entristeceu
ver ir para a sepultura ser humano brilhante que deu às costas para o Criador.
Agora chega a vez de Hitchens que, no teimoso orgulho
de manter a postura ateia que lhe caracterizou a vida e os escritos, não quer
desapontar os admiradores também negacionistas do
sobrenatural. Mas quem vai saber que tipo de pensamentos
passam pela cabeça de alguém em situações assim, quando está sozinho
consigo mesmo e com seu vazio não admitido? Não passará ele também por
experiência semelhante à do filósofo ateu Heinrich Heine ou do ex-ateu Antony Flew? Mais do que
pela cura física, oro para que Hitchens encontre a
Deus, mesmo que somente ele e o Pai saibam disso.[MB]